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Caso Enter: a Justiça quer ver quem revisou o que a IA escreveu

Sem proibir a IA, a Justiça mandou a Enter guardar os registros de geração e revisão de minutas, e o processo deve girar em torno deles.

Por Minski, opinião de Thiago Naves

Ilustração de uma advogada numa mesa, com um carimbo na mão, diante de uma fita de minutas que sai de uma máquina. Ela olha para um livro de protocolo aberto, onde a revisão de cada peça fica registrada.

Em 21/10, a Justiça Federal em São Paulo mandou a legaltech Enter guardar contratos, versões dos seus modelos de IA e o histórico de geração e revisão de minutas desde janeiro de 2024. A ação é da OAB-SP, que acusa a empresa de "advocacia sem advogado". A juíza não suspendeu a operação. Para quem usa agentes de IA em trabalho jurídico ou técnico, a pergunta passa a ser se você consegue mostrar quem revisou o quê.

Análise principal

A disputa sobre a Enter vai ser decidida nos registros de revisão

A primeira decisão no processo da OAB-SP contra a Enter não diz se a empresa pratica advocacia ilegal. Diz o que vai ser examinado para responder a isso, e o material escolhido são os registros de quem gerou, editou e revisou cada minuta.

Para empresas que usam agentes de IA em profissões regulamentadas, o recado é que o limite tende a ser traçado pela capacidade de provar revisão humana. Proibir a tecnologia não está em discussão, nem mesmo pela OAB-SP.

A juíza mandou guardar provas e deixou o resto para depois

Em 21/10, a 4ª Vara Cível Federal de São Paulo atendeu só em parte o pedido de urgência da OAB-SP contra a Talisman AI (Enter). Segundo a Exame, a empresa terá de preservar contratos, versões dos modelos de IA e registros de geração e revisão de minutas desde 1º/1/2024, sob multa de R$ 50 mil por descumprimento. Das três liminares pedidas, só uma foi aceita, informa a CNN Brasil.

Os pedidos para restringir a publicidade e as novas contratações ficaram para depois, porque dependem de provas. O pedido de suspensão também foi negado, segundo o Migalhas, que registra ainda a entrada da OAB-RJ como litisconsorte, isto é, parte que se soma à ação do mesmo lado.

Parte da imprensa leu o resultado como derrota da OAB, parte como vitória. O fato é mais modesto, uma concessão parcial no começo de uma ação que ainda não julgou se houve ilegalidade.

O agente escreve primeiro e o advogado responde pelo resultado

Segundo a CNN Brasil, os agentes da Enter produzem a primeira versão de cada etapa processual antes do advogado. A empresa diz que tudo passa por revisão humana e que a decisão final é de advogado habilitado. A OAB-SP afirma que não pede o fechamento da empresa nem a proibição da IA. Quer um advogado responsável identificado e o registro da revisão.

As duas partes concordam, portanto, que precisa haver um humano no fim da linha. A divergência está em quanto dessa revisão é efetiva e em como ela fica documentada.

Pense numa farmácia de manipulação. O técnico prepara a fórmula, o farmacêutico responde por ela, e ninguém se escandaliza com a balança eletrônica no balcão. A pergunta que importa é quem conferiu e onde isso ficou anotado. Num balanço contábil vale o mesmo princípio, com o assistente montando os números e o contador assinando. A ordem de guardar versões de modelos e históricos de revisão prepara o processo para esse tipo de pergunta.

Quem compra o serviço também entra na conversa

A Enter cita como clientes Bradesco, Mercado Livre, Nubank e LATAM, segundo a CNN Brasil. Isso leva a discussão para os departamentos jurídicos de grandes empresas que terceirizam o contencioso de massa, os milhares de processos parecidos que correm ao mesmo tempo. A aposta aqui é que, se a revisão humana tiver de ser demonstrada em juízo, esses clientes vão cobrar dos fornecedores a guarda dos registros. O mesmo raciocínio pode alcançar escritórios parceiros, outras legaltechs e, por analogia, serviços técnicos de outras profissões regulamentadas.

O registro tem um segundo uso, menos discutido, que é medir. No CEO Outlook da EY-Parthenon, com 1.200 CEOs de 21 países, Brasil incluído, só 16% disseram ter visibilidade clara e em tempo real do retorno da IA. Sem saber quanto tempo a revisão consome, nenhuma empresa sabe se o agente de fato economiza.

O melhor contraponto é que essa leitura pode estar adiantada. A decisão é preliminar, pode haver acordo com o Conselho Federal da OAB, e a advocacia tem regras próprias que talvez não valham para outras profissões. Parte das provas da OAB chegou de forma anônima e ainda não teve a autenticidade verificada, segundo o Migalhas.

O próximo marco é a fase de provas, quando os registros guardados começarem a ser examinados. É ali que vai aparecer o que "revisão humana" quer dizer na prática, se um advogado relendo cada peça ou um clique de aprovação.

Radar Minski

O que mais mudou

  1. Microsoft amarra promoção do Copilot à cobrança por consumo

    Em 21/10, a Microsoft lançou uma oferta para quem comprar ao menos 300 licenças anuais novas do Microsoft 365 E7, ativar a cobrança por uso e levar ao menos 5 pacotes anuais do Copilot Studio. Os pacotes vêm em dobro (até 5) por 12 meses, até 31/12. A venda do AI Builder acaba em 1/11, com migração para Copilot Credits.

    Por que importa: a conta de IA tende a virar variável. A cobrança por uso ligada por padrão no Copilot Business ainda não vale no Brasil.

    Microsoft Learn (Partner Center announcements) ↗

  2. Canva lança o Craft, seu primeiro modelo próprio de imagens

    O Craft, da Canva Research, foi treinado em modelos de design feitos por pessoas, não em fotografias. Segundo o Canva, ele planeja a composição antes de gerar a imagem para manter o texto legível. Entrega até 2K em 30 proporções e está disponível para todos os usuários no Dream Lab e via API, sem preço divulgado.

    Por que importa: peças com texto e layout são o trabalho diário de muitas equipes de marketing, e versões mais baratas foram anunciadas para breve.

    TechCrunch ↗

  3. Google abre no Gemini uma área para pequenos negócios

    O app Gemini ganhou uma página para donos de pequenos negócios, com funções de marketing e finanças. Ela se conecta a Business Profile, Google Ads e Workspace e a apps como Canva, Shopify, Wix, Zoho e Xero. Segundo o Google, a distribuição é global e chega a todos os usuários do app nos próximos dias.

    Por que importa: as funções chegam ao pequeno empresário sem contrato corporativo. O Google não informou preço nem confirmou português ou o Brasil.

    Google (The Keyword) ↗

Por trás da tecnologia

Humano no circuito e trilha de auditoria

Quase toda empresa tem um sistema de aprovação de despesas. O funcionário lança o gasto, o gestor aprova, e o sistema guarda quem aprovou, quando e o que mudou. Se a auditoria aparecer um ano depois, a resposta está lá.

Em sistemas de IA, a mesma ideia ganha dois nomes. Humano no circuito é o desenho em que o modelo faz uma proposta e uma pessoa precisa revisá-la antes que ela produza efeito. Trilha de auditoria é o registro que mostra que isso aconteceu, com o texto que o modelo gerou, a versão do modelo em uso, as mudanças feitas pela pessoa, o nome de quem aprovou e o momento em que o documento saiu do sistema.

Sem a trilha, a revisão humana é só uma afirmação. Com ela, passa a ser algo que se pode mostrar a um cliente, a um conselho profissional ou a um juiz.

Por isso a ordem no caso Enter, descrita pela Exame, alcança versões de modelos e registros de geração e revisão de minutas. São esses dados que permitem separar a peça que um advogado reescreveu daquela que só recebeu um clique. Para quem usa agentes em tarefas sensíveis, a pergunta prática é se o fornecedor guarda esse histórico, e por quanto tempo.

Thiago Naves

Opinião do Thiago

Thiago Naves, doutor em IA

O preço de um agente jurídico está na revisão

Olha, quem vende agente jurídico como advogado sem advogado está vendendo errado. E quem quer proibir está olhando para o lugar errado. O valor dessas ferramentas está no volume, nos milhares de processos parecidos que uma grande empresa carrega. O custo de verdade está na revisão.

Pensa comigo. Se o agente escreve a primeira versão e o advogado ainda precisa ler tudo com cuidado, a economia existe, mas é menor do que a apresentação comercial promete. Se o advogado só aperta o botão de aprovar, a economia parece enorme. Só que o risco ficou inteiro com ele, porque a responsabilidade continua com quem assina.

Você pode dizer que é cedo, que a decisão é preliminar e que tudo pode acabar em acordo. É verdade. Isso não muda o que você precisa ter dentro de casa. Sem registro de quem revisou o quê, você não se defende e também não mede nada. Aquele número de 16% dos CEOs que enxergam o retorno da IA não me surpreende nem um pouco.

Na reunião de segunda, eu faria duas perguntas ao fornecedor. Quanto tempo de revisão humana cada peça consome. E onde fica guardado o histórico dessa revisão. Sem resposta clara, eu não assinaria. Aposto que em um ano essas perguntas vão estar em todo contrato desse tipo.

Fontes (7)

  1. 1Exameexame.comSecundária
  2. 2CNN Brasilcnnbrasil.com.brSecundária
  3. 3Migalhasmigalhas.com.brSecundária
  4. 4EY (comunicado oficial)ey.comPrimária
  5. 5Microsoft Learn (Partner Center announcements)learn.microsoft.comPrimária
  6. 6TechCrunchtechcrunch.comSecundária
  7. 7Google (The Keyword)blog.googlePrimária